RJ – Há 37 anos o Brasil sofria a trágica e polêmica morte de Clara Nunes

A morte de Clara Nunes por insuficiência cardíaca ocorreu no dia 02 de abril de 1983, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, quando a cantora tinha 40 anos de idade.

Há 37 anos atrás o Brasil entrava em luto pela perda de uma das mais luminosas vozes ouvidas em todo o Brasil. A “tal mineira”, Clara Nunes, uma das cantoras mais populares do Brasil à época. É uma artista insubstituível, gigante e eterna. Tem uma obra inoxidável e foi sem a menor sombra de dúvida, uma das maiores que a música popular brasileira já viu e ouviu.

Foi de vestido branco, sorrindo, gingando com sua cabeleira e cantando sambas, que a mineira Clara Nunes se eternizou na música brasileira. Mas essa personagem, talhada sob medida por sua gravadora, é apenas a mais bem-sucedida das que Clara Francisca Gonçalves se dispôs a viver. Através de sua arte e também pela vida pessoal, a cantora era figura constante nas páginas de jornais, revistas e programas de TV.

Todo o mês de março de 1983 foi recheado de especulações e teorias da conspiração que inquietou o país. Tudo começou com uma má notícia e entrou em abril com uma pior ainda, quando o público soube, no dia 2 de abril de 1983, que a sambista Clara Nunes havia morrido. Clara foi vítima de toda sorte de boatos sobre a razão de ter entrado em coma.

Desde 1979, quando se submeteu a uma histerectomia (devido a um mioma que proliferava em seu útero), Clara Nunes começou a fazer tratamento de escleroterapia, que consiste na aplicação, por injeção, de medicamentos, diretamente no interior das varizes.
Com o decorrer do tempo, o calibre das veias diminuiriam e, consequentemente, o vaso se fecharia.

Um episódio emblemático ocorreu em junho de 1982. Após se apresentar no Festival Horizonte Latino Americano de Arte, em Berlim Ocidental, a cantora telefonara para a amiga Bibi Ferreira do quarto de hotel em que estava hospedada para lhe revelar sua preocupação com as varizes. Clara teria dito à amiga que estava dançando na frente do palco quando reparou que todos olhavam para suas pernas, na altura das canelas.
Ela disse que havia visto uma “veia estranha, feia mesmo” e comunicou a amiga sobre a decisão de fazer uma cirurgia de remoção após retornar ao Brasil.
Bibi Ferreira tentou convencer Clara Nunes de que a preocupação era bobagem, mas disse que ela deveria fazer a intervenção se estivesse realmente incomodada, já que a anestesia provavelmente seria local ou peridural.

Melhorar o visual das pernas acabaria se tornando uma obsessão para Clara, que sempre fora muito vaidosa. Sua preocupação com as pernas ganhou relevância no seu cotidiano a partir do surgimento de varizes mais grossas, que só seriam possíveis de tratar através de uma cirurgia.

O angiologista Antonio Vieira de Mello, renomado médico da área, foi escolhido por Clara Nunes para realizar o tratamento. Ela desejava tratar algumas veias varicosas salientes que a incomodavam do ponto de vista estético. Atribuía dores que sentia nas pernas às varizes, o que era considerado um exagero por pessoas mais próximas a ela.

O sofrimento da cantora começou no dia 5 de março daquele ano, Clara dispensou a carona do marido, o compositor Paulo César Pinheiro, e se dirigiu a clinica São Vicente na zona Sul do Rio de Janeiro. A sambista chegou à clínica às 07:50 da manhã e foi direto para seu quarto. Os funcionários reconheceram-na e começaram a comentar sobre sua presença no local, o que deixou a cantora visivelmente irritada.

Na clínica, além de ser reconhecida e causar euforia por onde passava, ouviu a equipe médica tentar dissuadi-la da anestesia geral. Os médicos tentaram fazê-la desistir da ideia, explicando-lhe as vantagens da peridural, e que a anestesia geral, em caso de pequenas cirurgias, pode ocasionar muitas complicações ao organismo, mas Clara foi categórica em sua resposta: “Se for para tomar a outra eu vou embora“.

Eles acabaram acatando a exigência da cantora. Às 10:30, Clara se dirigiu para a sala de cirúrgica e o procedimento começou às 10:45.

Após aplicação da anestesia em Clara, Dr. Antonio Vieira de Mello começou a operá-la. A cantora havia sido anestesiada à base de uma mistura de halotano, protóxido de azoto e oxigênio.

A cirurgia estava acontecendo normalmente. A perna direita já havia sido operada, e a esquerda estava sendo suturada, quando o médico percebeu que o sangue de Clara estava muito escuro, e jorrando em grande quantidade. Ao verificar a pressão, notou-se houve queda de pressão arterial, o que significa que a cantora estava com falta de ar, tendo uma parada cardíaca.

A ressuscitação manual já começara a ser realizada, mas foi interrompida devido à fibrilação do coração. Após os médicos tentarem ressuscitá-la, 03:40 da tarde, Clara foi encaminhada para o Centro de Tratamento Intensivo (CTI) da clínica. A cantora foi reanimada com um desfibrilador, mas não respondia voluntariamente aos estímulos, indicativo de que ela havia entrado em coma.

Clara havia tido uma fortíssima reação alérgica  a algum dos componentes utilizados no anestésico, ou seja, uma anafilaxia, que provocou a dilatação generalizada de todos os capilares sanguíneos de seu corpo. O cérebro não suportou tamanha pressão e um enorme edema se formou, causando a morte cerebral imediata da cantora.

Àquela altura, os médicos ainda não sabiam precisar a extensão do problema. O tomógrafo da Clínica São Vicente estava quebrado e, naquela época, só havia outro em toda a cidade do Rio de Janeiro, na Santa Casa de Misericórdia.

Enquanto estava em coma, todo o tipo de teorias surgiu para justificar o que havia acontecido com a cantora: que ela havia tentado fazer um aborto, que estava tentando fazer inseminação artificial, que havia tentado o suicídio, que havia sido espancada pelo marido e que o problema com a anestesia, o choque anafilático que a obrigou ser induzida ao coma, havia sido causado pelo problema da cantora com álcool e drogas.

Vários amigos artistas foram visitar a cantora neste mês de vigília, entre eles Paulinho da Viola, Luiz Ayrão, Beth Carvalho, Chico Buarque, Alcione, Elza Soares, Elizeth Cardoso, Dori Caymmi, Grande Otelo, João Nogueira, Dona Zica, Mauro Duarte, Fafá de Belém, Marieta Severo e Baby Consuelo. Esta última causou ao querer entrar com o curandeiro Thomas Green Morton (Famoso paranormal na época, e depois desmascarado como charlatão), sendo impedida pelo próprio marido da cantora.

A partir do momento em que Clara foi encaminhada para o CTI, a principal preocupação dos médicos era informar Paulo César Pinheiro sobre o ocorrido, e que muito possivelmente, se Clara sobrevivesse, teria sequelas, devido ao fato da falta de oxigênio no cérebro.

O compositor passou a acompanhar de perto o quadro médico da esposa, junto com a família dela, que saiu de Minas Gerais para acompanhar o estado de Clara.
Paulo César decidiu não ver mais a esposa, pois queria que a última imagem que tivesse de Clara fosse dela saindo de casa na manhã do dia 05 de março.

A pedido de Paulo César, que mantinha a esperança da situação ser revertida, o caso foi mantido sob sigilo, mas acabou vazando para a imprensa dois dias depois. A rua onde o casal morava, a Engenheiro Alfredo Dutra, se transformou num verdadeiro quartel-general de repórteres, assim como a clínica.

No ano anterior, ao presenciar de perto a enorme repercussão da morte de Elis Regina, Clara Nunes havia ficado aterrorizada ao ponto de pedir ao marido, ao voltar do velório da amiga, que ele não deixasse que transformassem a morte dela em “motivo para circo”.
No entanto, Paulo César Pinheiro pouco pôde fazer para atender ao pedido da esposa. Dezenas de fãs e artistas aportaram na entrada da Clinica, que seria palco de crises histéricas e orações.

Dez dias após o início do coma foi descoberta a extensão do edema, quando Clara Nunes foi levada para uma tomografia na Santa Casa de Misericórdia, o que foi feito de madrugada para que não houvesse comoção popular.

Naquele momento, chegaram à conclusão de que nada poderia ser feito para evitar a morte iminente da cantora, devido ao tamanho do edema cerebral.

Diante do silêncio de Paulo César e dos boletins médicos pouco esclarecedores, a imprensa começou a exigir que os médicos concedessem uma entrevista coletiva e que a sala de cirurgia fosse aberta para que fosse concluído se houve ou não falha nos equipamentos usados. Assim foi feito na terceira semana de março, quando o chefe do serviço de anestesia guiou os membros da imprensa pela clínica. Havia suspeitas de que o anestesista se ausentara da sala durante a cirurgia, de que houve erro médico no atendimento à cantora e de que teria ocorrido uma falha no equipamento que liberava oxigênio. A revista Veja entrevistou uma funcionária do centro cirúrgico que teria dito que, de fato, faltou oxigênio durante a operação.

Tumulo de Clara Nunes no Cemitério São João Baptista, em Botafogo – Rio de Janeiro
A MORTE DE FATO

Na madrugada de 02 de abril de 1983 (aproximadamente às 04:00 horas), as funções vitais de Clara Nunes começaram a desaparecer.

A irmã da cantora, Maria Gonçalves Pereira havia acabado de chegar à clínica, e ao entrar no CTI, ela percebeu que Clara não sobreviveria àquele dia. Chegou perto da irmã e lhe disse: “Estou aqui filhinha, você estava me esperando, não é? Agora você pode se desligar, pode seguir teu caminho“. Pouco depois, às 04:30 da manhã, Clara morreria após passar 28 dias em coma.

Maria Pereira e Paulo César entraram em contato com o presidente da Portela, Nezinho, para que o corpo fosse velado na quadra da escola de samba, em Madureira.
De madrugada, as emissoras de rádio anunciaram a morte da cantora e os fãs se dirigiram para a porta da clínica e, posteriormente, para o chamado Portelão. Desde as 06:00 da manhã, uma grande multidão se formava na porta da escola de samba.

Como medida de segurança, o corpo de Clara saiu de uma ambulância da Clínica São Vicente rumo à quadra da Portela, sendo acompanhado por populares, chegando  à sede da escola de samba às 10:30 da manhã. Com dificuldade, a ambulância entrou no pátio lotado e o corpo foi levado do veículo até uma sala onde estava o caixão.

Seis soldados da Polícia Militar conduziram o caixão até o centro da quadra, sob o aplauso das mais de 5.000 pessoas que ali se aglomeravam. Enquanto isso, a programação das principais redes de televisão do país era interrompida com flashes ao vivo da clínica e da quadra da escola de samba. Nas rádios, os sucessos do último álbum de Clara, “Nação”, tocavam incessantemente.

A partir do momento em que o caixão aberto foi colocado no centro da quadra, alguns tumultos ocorreram. Àquela altura, apenas 30 soldados da Polícia Militar faziam a segurança do local, assim como os seguranças particulares da Portela.

Seis seguranças da Rede Globo também estavam presentes no local e agiam com truculência, afastando público e repórteres do centro da quadra. Algumas das pessoas presentes caíram de um palco de cerca de dois metros de altura. Houve correria, com muitos empurrões e quedas. O recinto onde se realizaria o velório foi invadido e o caixão quase foi jogado ao chão.

Logo depois houve um segundo tumulto, com pessoas correndo para a rua. Alguns passaram mal e pelo menos uma pessoa desmaiou por falta de ar. A diretoria da Portela, incapaz de controlar a situação, se refugiou numa sala junto com a família da cantora.

O Batalhão de Choque da Polícia Militar foi acionado para conter a multidão. Ao todo, 500.000 pessoas passaram pela escola de samba para se despedir da cantora.

Foto Agencia O Globo

Paulo César Pinheiro decidiu não abrir um processo para investigar se a morte de Clara foi causada por erro médico. Para haver a investigação, ele teria que autorizar a exumação do cadáver dela. Seguindo a orientação da própria cantora, ele não permitiu que isso fosse feito. Ela teria lhe dito, após a morte de Elis: “me enterre como eu estiver, mas não deixe me cortarem“.

Uma investigação levada a cabo pelo Conselho Regional de Medicina da Bahia, a pedido do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro – impossibilitado de realizar a investigação por estar sob intervenção do Conselho Federal de Medicina – chegaria à conclusão de que Clara não fora vítima de erro médico. No final de abril de 1983, o Conselho Regional de Medicina da Bahia (CREMEB), informou que causa mortis apresentada no atestado de óbito da cantora foi “hipersensibilidade ao halotano”, gás administrado durante a cirurgia como anestésico. Os depoimentos apontaram que, tanto do ponto de vista técnico quanto humano, não houve falhas. Os médicos não se ausentaram, os equipamentos não falharam por falta de manutenção e a Clínica São Vicente era de excelência.

Houve repercussão na mídia o fato da Clínica São Vicente não ter pedido exames de alergia a medicamentos para Clara antes da cirurgia, mas a clínica defendeu-se dizendo não ter sido necessário.

Acabou sendo aprovado por unanimidade em sessão plenária no dia 28 de julho de 1983. A decisão do CREMEB era passível de recurso. Os parentes da paciente poderiam ter recorrido ao CFM. Paulo César Pinheiro, no entanto, teria dito que não iria recorrer por “não acreditar nesta Justiça”.

Por Waldir Tavares
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